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Simone Bambini, uma profissional promovendo o equilíbrio entre o corpo e a mente.

Postado em: 25/08/2009 por Simone Bambni

De todas as entrevistas que já publiquei nesse espaço, essa é a mais peculiar e diferente, pois trata de um tema presente na vida de todos os profissionais, que causa impactos significativos, na maioria das vezes negativos, mas que não é, nem de longe, cuidado como deveria ser.

Estamos falando do efeito causado pelas mensagens empresariais que impactam de modos diferentes a mente e o corpo de profissionais de todas as empresas no mercado de trabalho. Pior do que isso, segundo Simone Bambini, mestre em Comunicação e Semiótica, a comunicação interna tem função preponderante nesse assunto, podendo ter caráter positivo ou negativo, dependendo da natureza das mensagens que dissemina.

O assunto é tão sério, que as pessoas chegam ao absurdo de ignorar ou de fingir ignorar que esse fato está presente em suas vidas. Se sabem não se importam ou não se dão conta de que são vítimas diárias desse fenômeno. Seguem em frente como se nada estivesse acontecendo e o mal vai minando as resistências, dominando e deteriorando o corpo. Sem saber, vão vivendo a vida, morrendo ou se matando aos poucos.

Mais do que simplesmente efeito da vida moderna, do mundo globalizado, o problema está no modo de fazer comunicação, cuja atividade pode ser considerada vítima desse processo. Como a comunicação costuma seguir à risca os preceitos da vida moderna, ela se transforma num movimento de pressão à base do estímulo à motivação.

Nessa entrevista vamos falar um pouco de tudo o que se refere à pressão no trabalho, à corrida do tempo, do imediatismo dos resultados e da contradição das mensagens que são passadas aos colaboradores, que, ao invés de criar o estímulo real, produzem efeitos danosos para a saúde e a qualidade de vida dos trabalhadores.

Vamos aprofundar esse assunto com Simone Bambini, professora mestre em Comunicação, da FAAP, que defendeu a tese sobre a separação entre corpo e mente nas práticas da comunicação empresarial.

Vamos à entrevista.


Posso considerar sua tese como a dificuldade que as pessoas têm de encontrar um equilíbrio entre o inevitável ambiente estressante do trabalho e o desejo de ter uma vida mais tranqüila?

De certa forma, sim. O que a minha dissertação de mestrado procura é uma reflexão sobre o papel da comunicação no mundo do trabalho. O quanto ainda pensamos de maneira cartesiana e o quanto tentamos separar o joio do trigo. A vida é intensa seja no trabalho ou no lazer, mas o corpo que participa de tudo isso é um só. E o pior de tudo isso é que a área de comunicação nada sabe sobre isso. A idéia é que precisamos refletir, repensar nosso papel de maneira global seja no trabalho ou em qualquer outro papel que desempenhamos na vida. O corpo é único e singular em qualquer processo.

O que você quer dizer com “separação entre corpo e mente”? Se é possível encontrar um equilíbrio, então como fazer isso?

Não existe uma separação entre corpo e mente. Eles são partes integrantes um do outro. A mente faz parte do nosso corpo. Já a questão do equilíbrio é difícil de explicar, porque depende de cada um e da empresa. Por exemplo, se as empresas fossem mais transparentes naquilo que esperam do trabalhador, talvez poderíamos ter um equilíbrio melhor. O empregado não é a empresa, ele apenas faz parte dela. Quando a empresa não precisa mais de você, ela encerra o seu contrato. Para ter sucesso no que faz, o empregado deve simplesmente cumprir suas obrigações com empenho. A empresa não é, como se diz, uma grande família e você não tem que vestir a camisa da empresa. Você tem que ser leal à ela. Ser fiel é outro papo.

Por exemplo, se você está resolvido em relação a sua vida e em relação à empresa, você sempre irá falar bem dela, independentemente de estar lá ou não. Nesse caso, você será sempre fiel a ela. Então, a empresa precisa modificar o seu discurso para ser coerente com a realidade da vida agora e conquistar a confiança do funcionário.

A inteligência emocional não seria uma tese de conforto para os males que você identifica na dicotomia entre o corpo e a mente?

A inteligência emocional é um bom tema, mas ainda se pauta na separação entre á emoção e a razão. O que estou tratando é a idéia de entender a inteligência do nosso corpo de uma forma integrada, a partir da teoria do corpo-mídia, desenvolvida por Helena Katz e Christine Greiner, da PUC-SP., que deixa de ser um meio por onde a informação passa para ser entendido como resultado de trocas constantes, como o tempo que a cada momento é de um jeito. O pensamento é organizado no corpo, a partir de nossas habilidades como o olfato, a visão, o tato, o paladar, a audição e a percepção intuitiva. É através do corpo que eu reconheço a informação e aprendo a lidar com elas.

Por mais que alguém se auto avalie racional, não imagino que possa separar a emoção da razão. Se isso é possível, como ocorre?

Como já expliquei anteriormente, não existe esta separação. Mas as pessoas quando querem resolver uma questão muito importante, dizem que nesta hora, precisam utilizar a razão para definir, discernir os fatos e deixar a emoção de fora. Você tem razão, isso é impossível.

Um sujeito trabalha doze horas por dia, completamente envolvido em seu negócio, sai do trabalho tenso e vai direto para um bar a fim de tomar um uísque, chega em casa por volta das 23h00 e no dia seguinte caminha às 06h00 da manhã, para seguir direto para o trabalho novamente. Podemos considerar que esse indivíduo leva a uma vida saudável?

Hoje temos um discurso do politicamente correto. Temos que trabalhar, fazer sucesso e adquirir muito, ou seja, consumir muito para ser feliz. Acontece que para conseguir isso são impostos vários padrões de conduta e nos sentimos compelidos a isso para estar dentro dos padrões. Será que temos mesmo que se submeter a isso? Queremos ou somos levados a isto?

Qual é o efeito da pressão do tempo no dia a dia de trabalho de uma pessoa comum? È uma bomba relógio, que pode explodir a qualquer momento. Hoje temos que cumprir metas e mais metas. Os gerentes de banco, por exemplo, têm que vender os produtos agregados ao serviço e, muitas vezes, fica mais envolvido com essas metas do que com sua função de administrar de forma competente a agência sob sua responsabilidade. Ele aumenta o limite da contado cliente para ele comprar uma cota de consórcio. Negligencia o controle de administração da agência e compromete o sistema quando o cliente estoura sua conta bancária.Tudo isso é válido para que ele cumpra sua meta. Muitas vezes este gestor deixa de lidar com o seu trabalho precípuo e com os seus subordinados de maneira responsável e prazerosa. As empresas perdem com isso. Se por um lado lucram mais, por outro perdem funcionários sadios e ganham funcionários descomprometidos. O nosso corpo sabe que isso é um problema e sofre muito com isso. Mas e as metas e o medo da perda do emprego? Tudo isso produz as doenças do nosso tempo, como a depressão.

Todo ambiente empresarial é intenso e estressante por natureza. Não dá para separar o corre-corre do dia a dia, nem a emoção envolvida na tensão das decisões. O que fazer?

Tudo isso está presente no seu corpo, para uns é uma adrenalina importante que o impulsiona para trabalhar melhor, para outros é tormento e sofrimento. A questão é que as empresas camuflam essas informações e afirmam, a todo momento, que ali é um lugar maravilhoso para se trabalhar. Como o corpo e a mente não se desassociam estabelece-se o conflito e o corpo sofre.

Outra questão que traz efeitos danosos para a saúde do funcionário é o uso da tecnologia, que trouxe uma mudança de comportamento radical nos últimos tempos. Celulares, Intranet e Internet são ferramentas importantes para o trabalhador, mas o aspecto invasivo inconsciente e o controle do tempo e dos minutos também afetam demasiadamente a pessoa. Quantas pessoas substituíram o seu tempo pessoal e de lazer por atividades de trabalho via tecnologia? Quantas horas por dia ficam os funcionários submissos e à disposição da tecnologia? Cada um de nós deveria usar esses recursos para facilitar a própria vida e usufruí-la em favor próprio. Mas, ao contrário, não nos damos mais conta de que perdemos a liberdade e a privacidade e acabamos valorizando essa nova dependência.

Você poderia detalhar melhor a questão da convenção de vendas e o efeito que ela causa nos profissionais envolvidos?

Quando a área de comunicação planeja uma convenção de vendas ela utiliza esse encontro para estimular e motivar seus colaboradores a uma nova conduta considerada positiva para a empresa. Para isso, adota uma série de estratégias criativas e diferentes para atingir este objetivo. Escolhe lugares mais afastados e distantes da rotina do trabalho. Os temas são definidos de acordo com os interesses da empresa e associados, quase sempre, ao bem estar dos colaboradores. São muito comuns os temas relacionados à importância do lazer, do entretenimento, da saúde e do trabalho em equipe. O que causa o desconforto é que esse clima só existe naquele ambiente, a falta de continuidade dele na rotina das empresas afeta o comportamento dos funcionários posteriormente.

O que acontece exatamente quando os profissionais retornam ao seu trabalho depois de um final de semana num hotel fazenda, durante uma convenção de vendas?

Reunidos nesse clima envolvente e distante da sua rotina de trabalho, visualizam a possibilidade de incorporar esses conhecimentos no cumprimento de suas metas, porém ao retornarem a vida cotidiana, as questões tratadas no evento parecem ficar descoladas, pois não encontram uma continuidade na rotina da empresa. Diversas empresas, em seus discursos e em suas campanhas de motivação ressaltam a importância do lazer e do entretenimento como necessidades vinculadas ao bom desempenho profissional, mas até que ponto, de fato, o funcionário pode abrir um espaço real para isso no trabalho? Muitas vezes as diretrizes motivacionais e criativas ficam somente no discurso e nos dias vividos no evento. Na empresa, mesmo que isso resulte em situação angustiante, o funcionário está sempre imerso na competitividade para gerar lucro. É a mensuração dos resultados do seu trabalho que dá a visibilidade capaz de gerar a sua aceitação no mercado de trabalho e não a mensuração da qualidade de vida que é transmitida nos encontros empresariais.

Como estas questões são distintas, o que se fala e se propõe nos encontros não se confirma ou ocorre nos dias de trabalho na empresa. O corpo não entendeu esta distinção e, é claro, sofre com isso. Será que não está na hora da empresa entender que o seu discurso tem que ser coerente e que assim ela poderá contar, realmente, com corpos saudáveis, felizes e motivados?

Quais as consequências maléficas causadas por esse tipo de realidade?

Não querendo ser muito pessimista, as pessoas estão cada vez mais estressadas, angustiadas e sofrem muito por terem que trabalhar de maneira tão incoerente. No pacote das aflições estão os bombardeios do discurso politicamente correto e saudável. Quantos de nós ou dos que nos cercam se afligem com a angústia de lidar com a falta de tempo, com a necessidade constante de cumprir metas, com o estresse do cotidiano, com o medo de ficar desempregado e a necessidade de ser feliz.

Chistophone Dejours, psicanalista e especialista em medicina do trabalho diz que “para o homem a doença corresponde sempre à ideologia da vergonha de parar de trabalhar” e coloca, no tema de seu livro, várias doenças como alcoolismo e a depressão como fuga e sustentação para a loucura do trabalho.

Para os profissionais de comunicação, recomendo que não fiquem preocupados, mas sim estejam conscientes desses fatores. Eles devem ficar atentos para repensar a comunicação interna da empresa e orientar os departamentos de recursos humanos e de marketing para a questão da associação entre corpo e mente presente no ser humano e em todos os funcionários das empresas.

 


Simone Bambini é formada pela Cásper Líbero em Comunicação Social com habilitação em Relações Públicas. Pós-graduada em Marketing pela FECAP e Especialista em Criatividade e Máster em Tecnologia Educacional pela FAAP. É Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo.Atualmente é professora do Curso de Comunicação Social e Relações Públicas da FAAP. Lecionou também na UNIFIAM e na Anhembi Morumbi.Atua na área de comunicação empresarial, tendo sido gerente de Marketing e Eventos da ABDIB - Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base, foi assessora de comunicação do Grupo Fenícia e assistente de relações públicas do Conrerp 2ª Região – SP/PR.Foi membro da Diretoria do CONRERP - Conselho Regional dos Profissionais de Relações Públicas – gestão 98/2000e atualmente é integrante do grupo universoRPnet.

 

Se você quiser conversar com Simone Bambini sobre esse ou outros assuntos, encaminhe sua mensagem para bambini.adsl@uol.com.br

Se quiser mandar algum comentário sobre esse assunto para o grupo universoRP encaminhe sua mensagem para universorp@universorp.net


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