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Relações Públicas e a Síndrome da Cadeira Cativa

Postado em: 08/10/2009 por Flávio Schmidt

Primeiro foi a decisão do STF a respeito da não obrigatoriedade do diploma do jornalismo que trouxe de volta a discussão desse mérito e muitos Profissionais de Relações Públicas se apressaram em manifestar suas opiniões a respeito.

Agora é a vez do MEC surgir com a proposta de transformação das habilitações das áreas de Comunicação Social para cursos de especialidades. E os profissionais, mais uma vez, se apressam em manifestar suas opiniões a respeito, na busca do entendimento, mas também gerando muita contradição e desinformação.

Não entrarei aqui no mérito, nem da desobrigação do diploma de jornalismo nem da proposta do MEC sobre os cursos de comunicação. O que desejo apresentar é minha visão sobre a atividade de Relações Públicas no mercado e sobre o perfil do profissional da área. Se essa visão se configurar numa defesa de Relações Públicas, tudo bem, tenho feito isso incansavelmente nos últimos anos desde que me habilitei em Relações Públicas.

Entendo que dois importantes aspectos devem ser considerados nesse momento: a legitimidade e a legalidade.

Quanto à legitimidade, a atividade de Relações Públicas, exercida por seus profissionais, deixa muito a desejar, pois o reconhecimento do mercado não é pela formação e função da especialidade. Todas as pesquisas da área e todas as constatações na prática dão conta de que a área não é ocupada por seus profissionais habilitados, mas sim, em sua maior parte, por profissionais de outras áreas e, em especial, por jornalistas. Embora haja reconhecimento pela atividade, não há nenhum reconhecimento e muito menos legitimidade em relação aos profissionais habilitados da área. 

A situação atual é mais ou menos como a do sujeito que comprou cadeira cativa em estádio de futebol e depois de alguns anos, sem comparecer, resolve assistir um jogo. A chance dele de encontrar sua cadeira cativa desocupada é de uma em um milhão e a de fazer o sujeito que a ocupa sair dela é de duas em um milhão.  

 

O que interessa, portanto, para os relações-públicas é refletir sobre como esse espaço está ocupado e o que isso representa em perdas e prejuízos.

Quanto à legalidade, a situação é diferente. Relações Públicas é a menor categoria entre todas da área de comunicação, mas, no entanto, é a mais bem organizada entre elas. São mais de 40 anos de amadurecimento com a criação de sistemas, normas, regulamentos, instruções normativas, portarias e resoluções, o que nenhuma outra profissão, que quisesse constituir seu conselho agora, seria capaz de fazer o mesmo em menos tempo que esse.

Ser regulamentada não é demérito nenhum, mas também não representa nada para o mercado. O contraditório é que as demais áreas da comunicação estão discutindo a regulação de suas atividades como saída favorável para sua sobrevivência, como o próprio jornalismo e o marketing, que tramitam projetos de lei no congresso nacional.

Agora, por outro lado, vem o MEC propor uma modernização com a transformação dos cursos, mas especificando a assessoria de imprensa única e exclusivamente para os jornalistas. Isso não é no mínimo estranho?

O argumento de que estamos vivendo na modernidade, no mundo da livre iniciativa e que a área de comunicação deve ser definida pela competência contradiz o real posicionamento dessas categorias e agora a posição do próprio MEC com a classificação das áreas de atuação para cada uma delas.

É preciso deixar claro, antes de mais nada, que Jornalismo e Relações Públicas são duas coisas completamente diferentes, ainda que o mercado insista no contrário e tenha misturado as duas atividades sem nenhum respeito às duas áreas e profissões.

No caso do diploma, isso está demonstrado na posição dos ministros do STF. Nenhum deles fez referência ao jornalismo como atividade organizacional, como função administrativa, como é o caso de Relações Públicas. O jornalismo tratado nos pareceres é o jornalismo na sua essência, ou seja, na função de transformar fatos e acontecimentos em notícias para informação geral da população, sendo exercido em veículos de comunicação.

Para exercer a função de Relações Públicas é preciso estudar muito mais e ter aprendido princípios de relações humanas, sociologia, antropologia, filosofia e política administrativa. Fundamentos da formação da opinião, da opinião pública, princípios de propósito, conceito e imagem organizacional, além de cultura e ambiente organizacional. Ter aprendido e compreendido que Relações Públicas é filosofia administrativa organizacional e não apenas comunicação. Como, nesse caso, o MEC especifica muito bem no item Temas Abordados na Formação.

Portanto, não dá para exercer Relações Públicas sem esses princípios e técnicas. É claro que essa visão é coisa distante do mercado, mas daí, pregar que o que vale é simplesmente a competência também é distante do bom senso.

Certo está Pedro Souza Pinto, profissional de Relações Públicas, coordenador do horizonterp 

Para ele:

“a noção de ‘competência’ no mercado não é simples assim. Enquanto normalmente associamos competência com conhecimento, com ‘saber fazer bem’, o mercado entende como ‘ser capaz de alcançar resultados’. Uma empresa que visa lucros facilmente substituiria um Mestre com anos de experiência prática por um recém-graduado que se mostrasse capaz de gerar mais lucro (e por um salário menor) em menos tempo. Mas esse recém-graduado faria isso com conhecimento de causa e ética?”

É claro que o mestre e o jovem têm competências e éticas próprias, que não podem ser comparadas porque são únicas. Mas a volúpia dos negócios por resultados imediatos põe em xeque, invariavelmente, a qualidade técnica e os princípios éticos. Não quer dizer que os resultados imediatos não contenham ética, mas o mestre sabe que resultados construídos com fundamentação técnica e conceitual, ética e transparência são sempre mais difíceis de conseguir do que o que se pode fazer de um dia para o outro.

Relações Públicas é mestre porque sua formação é simplesmente a mais completa de todas as demais da área de comunicação e nós profissionais não damos a devida importância a ela.

A contradição existe porque, se por um lado temos um sistema legalmente organizado e muito bem estruturado (tudo o que as outras categorias estão tentando fazer), por outro não somos legitimamente reconhecidos como os especialistas indicados para exercer a atividade de Relações Públicas, talvez por isso, seja interessante para eles a mudança do nome para Comunicação Organizacional.

Há muitos anos os profissionais de Relações Públicas discutem internamente o que fazer para mudar esse quadro, entretanto, pela permanente inércia da categoria, pela força do mercado e pela ocupação dos espaços, esse movimento contrário aos interesses dos relações-públicas se fortalece cada vez mais.

Uma nova oportunidade

Ocorre que agora surgiu mais uma oportunidade real para resolver essa situação. Todos juntos - Sistema Conferp, ABRP e Profissionais de Relações Públicas – devem iniciar um movimento único de fortalecimento da atividade, demonstrando que ela deve ser exercida por profissionais habilitados.

O primeiro passo é demonstrar que as relações públicas praticadas no mercado representam somente 10 % do escopo real da atividade. Os profissionais de Relações Públicas podem fazer muito mais para as organizações e instituições do que elas recebem e têm atualmente.

O processo é muito simples, se cada um parasse de falar e assumissem individual e publicamente que têm a melhor formação e, portanto, a melhor qualificação para exercer essa atividade e colocasse isso em prática, seria como entrar em campo e fazer seis goals no primeiro tempo. A diferença é simplesmente muito grande.

Precisamos deixar de cultivar a síndrome da cadeira cativa, cujas conseqüências todos já conhecem muito bem. E não permitir que, por causa da perda da identidade dos jornalistas, deixemos, mais uma vez, sermos prejudicados. Nem assistir à distância e na platéia o MEC tomar a decisão por nossa conta. Vamos fazer valer nosso direito adquirido, de fato, e acabar de vez com a síndrome da cadeira cativa em nossa profissão.

Melhor do que isso, trata-se de uma campanha fácil e barata de ser realizada, porque depende exclusivamente da atitude e comportamento de cada profissional, individualmente.

Essa é a atitude correta e elevada para a defesa dos nossos interesses e não a simploriedade e fraqueza do receio de perder o direito do diploma e o direito de exercer plenamente as próprias funções.


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