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A situação crítica das faixas de ônibus e o banho do bebê

Postado em: 08/11/2013 por Flávio Schmidt
Com o sucesso inicial alcançado pelo projeto, a prefeitura da cidade avança desordenadamente em sua expansão. Ela entregou, com dois meses de antecedência, os 220 km planejados até o final do ano e, ainda, prometeu mais 70 km nesse período.

Apesar dos transtornos causados ao trânsito, a população aprovou a iniciativa, mas já começam os questionamentos ao modo como a prefeitura caminha sem planejamento adequado e sem observar os impactos que causados aos próprios cidadãos, que o apoiaram.

O prefeito Haddad declarou que “o transporte coletivo terá absoluta prioridade e com a conclusão das medidas o paulistano pensará duas vezes antes de tirar o carro da garagem”. Ele se esqueceu de analisar e definir o que fazer com esse mundo de carros que circula nas ruas todos os dias. Ignorá-los, como tem feito, não é a melhor alternativa.

Em editorial, o OESP, de 10 de outubro, diz que: no lugar de implantar, sem planejamento e a toque de caixa, as faixas exclusivas [...] deveriam adotar um plano capaz de harmonizar a utilização de carros com o transporte público, de acordo com as necessidades das várias regiões da cidade”.  

Dai se conclui que a iniciativa pode ser boa, mas o conjunto não, pois considera somente um lado da questão. Isso é o mesmo que dar banho no bebê e depois jogá-lo fora junto com a água.

O outro lado começa a se manifestar

Muitos trechos estão recebendo faixas de ônibus duplicadas e o trânsito de carros sendo desviado para ruas periféricas. Os técnicos da CET consideram isso fruto de planejamento, mas não percebem que, na verdade, estão transferindo o problema para outros setores.

Na semana passada houve manifestação pública na região próxima ao Autódromo de Interlagos, na confluência da Teotônio Vilela com a Padre José Garzotti, onde a prefeitura implantou desvio do fluxo de carros para as ruas periféricas da região.

Segundo os moradores – as ruas da região são residenciais, estreitas e não comportam grande fluxo de automóveis e caminhões. Além de causar danos às vias públicas também congestionam o trânsito local, geram barulho e propiciam o aumento da violência local.

Falar é fácil, o difícil é saber o que fazer ou fazer o que precisa ser feito.

Mostrar fotos de congestionamentos, índices de poluição, análises sociocomportamentais e impor medidas contra a circulação de carros, com afirmações falaciosas e demagógicas é muito mais fácil do que pensar em medidas concretas para solucionar o problema como um todo. 

O prefeito está diante de uma situação crítica e contraditória. Enquanto prega o direito social da população que utiliza o transporte público, a livre circulação de ônibus e a retirada forçada dos carros da rua, montadoras, agentes financeiros, marketing e propaganda despejam conceitos e princípios consumistas sobre a mesma população para a compra e utilização de carros.

Porque o prefeito, ao invés de fazer discurso demagógico, não convoca esses representantes para discutir o fim do marketing da sustentabilidade, da publicidade enganosa que objetiva apenas vender a ilusão do status e do poder de compra de máquinas potentes, cuja velocidade nunca será alcançada numa cidade como São Paulo. Essa tal qualidade de vida anunciada existe somente no ato da compra, porque na prática, impacta na qualidade de vida de todos e diretamente na mobilidade urbana.

Porque não pedir aos profissionais de marketing e publicidade para transformarem suas campanhas em movimentos reais de qualidade de vida, sem apelos emocionais, de status e falsas conquistas.

O prefeito Haddad precisa se conscientizar de que sua conversa não leva em conta que os motoristas de carros particulares e de caminhões, colocados à margem, são igualmente cidadãos que pagam impostos e que têm o direito à livre circulação. Qual é o verdadeiro empenho desses representantes de criar as condições reais para a mudança de comportamento dessa grande massa que utiliza carros para trabalhar?

Para mudar o comportamento da população que utiliza carros no dia a dia, basta criar condições reais e concretas para os cidadãos deixarem seus carros em casa. Se fizer isso, o governo vai economizar milhões de reais em propaganda e publicidade e terá o apoio total da população, que mudará espontaneamente seu comportamento.

Ao invés de discurso falacioso e da propaganda enganosa, a administração pública deveria criar um sistema de relações públicas com outputs e inputs efetivos e ouvir, sincera e realisticamente, as opiniões e sugestões da população que utiliza carros diariamente e aplicar as ideias e sugestões vindas desse relacionamento.

É preciso capacitar os técnicos da prefeitura em gestão de risco para analisar o ambiente em função das características de cada região e evitar os impactos decorrentes das mudanças. Começar a pensar num plano técnico para a solução dos carros e criar condições adequadas para a mudança de hábito e comportamento dos que o utilizam.

Fazer as áreas de comunicação, da prefeitura e da CET, se integrarem de maneira articulada aos projetos da prefeitura e fazê-las assumir o papel de agentes de transformação para tratar o projeto dentro de uma visão muito mais ampla do que apenas a divulgação e o gerenciamento. Fazê-las entender as características e realidades de cada segmento para criar planos de comunicação específicos a fim de conscientizar ambos os lados – governo e população, sobre as implicações de medidas tão importantes.

E aí sim, além de solucionar os problemas, a prefeitura vai parar de jogar a criança junto com a água do banho.


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