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A separação entre corpo e mente nas práticas da comunicação empresarial

Postado em: 25/08/2009 por Simone Bambini

Dissertação de Mestrado de Simone Bambini

Esse texto é fruto da minha pesquisa de dissertação de mestrado, desenvolvida na PUC-SP, em 2008. A dissertação teve como objeto de estudo o impacto causado pela dicotomia entre o corpo e a mente na dinâmica da formação do profissional de comunicação e nas novas práticas empresariais.

Esse contexto está presente no pensamento cartesiano desenvolvido pelo filósofo francês, René Descartes (1596 -1650), que consiste no ceticismo metodológico – tudo tem que ser provado. Devemos a ele a designação da dúvida – só se pode dizer aquilo que possa ser provado, ou seja, para ele o ato de duvidar é indubitável.

Esse pensamento, muito presente em nossa sociedade, faz com que a comunicação praticada pela maioria dos profissionais da área continue embasada no pensamento dualista e dicotômico, ou seja, trabalha com a separação entre corpo e a mente e com a razão e a emoção sendo entendidos como domínios inconciliáveis.

Vivemos essa dicotomia no nosso dia-a-dia. Basta atentar para o modo como nos comportamos diante de um problema. As frases mais ditas e ouvidas no mundo empresarial são: “precisamos separar a razão da emoção”, ”não se pode pensar com o coração”, “quando a cabeça não pensa, o corpo padece”.

Qual será o efeito dessas frases na mente e no corpo das pessoas, considerando que o cérebro e o corpo encontram-se indissociavelmente integrados por circuitos bioquímicos e neurais. Como podemos, então, quebrar esse paradigma cultural? Compreendendo os estudos da neurociência, como uma nova ótica para o mundo.

Os estudos da neurociência sobre o corpo humano contradizem toda essa maneira cartesiana (dualista) de pensar. A percepção de que fazer escolhas não passa de um processo binário (sim / não), que envolve uma reta única com apenas duas possibilidades e sem caminhos alternativos é equivocada e maléfica para o corpo e a mente. O nosso pensamento funciona em rede, por diversos caminhos alternativos, o nosso cérebro é integrado, logo podemos dizer que a nossa vida também é.

As descobertas recentes do funcionamento integrado do cérebro, a partir dos anos 70 e 80, revelam que não há uma divisão binária entre esquerda (razão) e direita (emoção), pois, apesar dos lobos cerebrais terem funções distintas e serem diferenciados, eles se comunicam. A separação esquerda / direita se faz por uma linha simbólica, devido ao funcionamento ocorrer de forma interligada, em uma espécie de “mapeamento múltiplo” feito por uma rede de neurônios que fazem as associações por meio das conexões sinápticas.

O neurocientista português, Antônio Damásio, em seu livro O Erro de Descartes (1996), nos relata a importância de se compreender as conexões existentes entre emoção e razão e descreve a capacidade do cérebro emocional contaminar as decisões racionais. Traz como exemplo o caso de Elliot, paciente que, devido à remoção de um tumor no cérebro, perdeu a capacidade de se emocionar e que, apesar de ainda conseguir pensar, não conseguia mais tomar decisões.
Isso quer dizer que a razão e a emoção são um conjunto de circuitos neurais que estão integrados e que o processo de decisão não se trata de um eu consciente que efetiva a decisão.

Com isso, podemos então quebrar o paradigma de que pessoas racionais não usam a emoção para tomar suas decisões. Uma pessoa supostamente racional, por mais fria e amena que ela seja, adota sempre decisões baseadas na sua emoção. A emoção sempre envolverá a razão numa tomada de decisão. E, mesmo ao contrário, as pessoas ditas como muito emocionais, também adotam medidas de acordo com o seu circuito neurológico baseado na razão.

Tudo está integrado no seu corpo, nada nunca está isento. E apesar de todas estas descobertas, o nosso cotidiano ignora esses fatos.

Como podemos perceber, pelo processo educacional praticado na maioria das escolas, o ensino continua pautado na escrita e na leitura, ignorando outras linguagens do corpo. O gesto, a dança, o teatro, a performance e a atividade circense continuam sendo tratados como um tipo de conhecimento sem discurso lógico, como fazeres ligados à prática, mas não saberes.

E isso institucionaliza, na educação, a dicotomia teoria–prática, bastante ligada à separação razão–emoção, que faz parte do dualismo corpo–mente.

Os entendimentos dualistas não estão presentes somente nas escolas ou universidades, mas também nas empresas. Eles fazem parte dos planejamentos estratégicos e dos departamentos de comunicação que divulgam as diretrizes e os valores da organização, seja nos veículos internos, nos meios de comunicação ou nas atividades de relacionamento com os colaboradores.

Os eventos que são utilizados para inúmeras finalidades empresariais, se aplicam nessa teoria, especialmente na motivação de funcionários, no estímulo ao empenho de suas atividades, na conscientização da importância de uma vida saudável e em campanhas de conscientização dos problemas da sociedade, como o do meio ambiente e o da construção de cidadania.

As convenções de vendas, por exemplo, criadas nas empresas como ferramenta de comunicação, são direcionadas pelo setor de vendas para a motivação de funcionários. Elas costumam acontecer em lugares requintados, fora da empresa, com duração de alguns dias e envolvem de todo modo a sensibilidade dos funcionários. Nelas são apresentadas palestras motivacionais com a presença e depoimentos de profissionais de diversas áreas como do esporte, da música, celebridades e artistas enfatizando a importância do entretenimento e da criatividade na realização de suas tarefas no trabalho.

Reunidos nesses encontros e distantes da sua rotina de trabalho, os funcionários ouvem palestrantes que os inspiram com suas experiências diversificadas e os fazem crer na possibilidade de incorporar esses conhecimentos no cumprimento de suas metas cotidianas de seus trabalhos no dia a dia.

Ao retornarem à rotina diária, as questões tratadas no evento parecem ficar descoladas, pois não encontram uma continuidade na rotina do trabalho. A pressão dos negócios, a hierarquia estabelecida, os conflitos pessoais e profissionais, tudo isso torna-se muito significativo e diminui a força do que foi vivido no evento.

Acredita-se no potencial motivador do evento, mas não se leva em conta que nem todos estão empenhados ou vivem nesse mesmo sentido. Os efeitos da motivação e os da realidade do funcionário são incompatíveis. Para muitos, o estímulo do evento é somente um momento de lazer e sociabilidade entre os seus pares.

Vale esclarecer que o problema aqui não são as metas, os lucros ou o desejo de sucesso nos negócios, nem tampouco a importância da realização de eventos como estratégia de comunicação interna. O que se propõe esclarecer é o modelo de desenvolvimento da percepção de que o corpo não separa as questões resultantes do lazer e do trabalho. O corpo do funcionário que está recebendo estímulo por meio dos discursos criativos e das práticas de entretenimento é o mesmo que recebe o estímulo das metas e busca de resultados imediatos e que, por isso, adoece quando as pressões se tornam excessivas.

O corpo e a mente não se separam, mas as diferentes práticas adotadas nas empresas estão sempre separadas.


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